Epifania

outubro 18, 2008

Hoje me olhei no espelho e reparei que quem me olhava de volta não era o mesmo rosto conhecido de sempre, nem as lágrimas que marcavam minha face eram as mesmas que eu sempre soube que pertenceriam eternamente a mim.

Hoje me olhei no espelho e não reconheci o que vi me olhando de volta. Senti falta mim, senti falta de minha vida.

Percebi que minha vida continuava na mesma esquina de sempre esperando pacientemente pelo meu retorno. Quieta, pacata, com a mesma jovialidade que eu sempre me lembrei e os mesmos sonhos puros esperando por realização.

E essa vida impostora que vivo agora é tão irreal quanto o pensamento de irrealidade que tenho sobre ela. E essas lágrimas choradas são tão falsas quanto o é esta vida que insisto em levar… por pouco tempo, pouquíssimo tempo.

Anúncios

temporais.

setembro 25, 2008

ouço a chuva bater na janela, como se me pedisse para entrar. eu a olho através das vidraças, como criança sedenta: quero deixa-la entrar.
não para que molhe meu tapete ou minhas poltronas, não para que encharque minhas cortinas de renda ou estrague meu assoalho de taco escuro e antigo, talvez mais velho que o mundo. mas para que ensope minhas roupas, inunde o meu mundo e me afogue com seu peso atemporal.
assim, quando a chuva acabar, talvez minhas margens estejam fecundas e prontas para criar.

talvez haja como brotar alguma vida, que não seque e despedace ao ouvir o som da tua voz,
o ruído do teu riso nervoso,
o eco dos teus passos de adeus.

Num domingo qualquer

setembro 17, 2008

Acordei com gosto de choro na boca e sentimento de derrota na alma. Sinto-me tão vazia que nem me atrevo a tentar fingir para os outros que está tudo bem, porque hoje é um daqueles dias excepcionais onde sei que não conseguirei dissimular a enorme angústia que me aflige.

Minha tristeza, minha fraqueza, minha desilusão. São os únicos seres que me acompanham neste domingo ensolarado no qual tudo sorri e mesmo assim nada me comove.

Todos seguem suas vidas e eu continuo aqui no canto.

ventos.

setembro 9, 2008

eu me sinto sozinha.

mas não é algo atual. vem desde os primórdios de minha respiração. para não me sentir rejeitada, preferi ser solitária. mas às vezes a solidão escancara a porta e gargalha na minha cara, fazendo-me encolher trêmula num canto.

tinha tantos medos! mais medos que sonhos. e para cada tarde de ócio, criava mundos diferentes, com meninas que montavam cavalos selvagens, exploravam ilhas perdidas ou viajavam pelo Universo, explorando galáxias desconhecidas.

hoje, não mudei muito. e às vezes fico com esse estranho vazio no peito, que às vezes sulca fundo. nessas horas, amo ainda mais o vento: porque pode vagar livre por todos os cantos, livre de correias e compromissos e calendários e estações.

quem me dera poder vagar junto dele, através dele, das chuvas sem fim e do suave sol de um amanhecer qualquer.

O blog

setembro 8, 2008

Hoje um aluno meu me perguntou, mais um vez, se eu escrevia alguma coisa e dessa vez eu respondi que sim. Mas me lembrei de acrescentar automaticamente: “nada que preste”.

Acredito que menti, não acho que meus textos não prestem (muito menos que sejam maravilhosos) é que apenas não tenho vontade de compartilhá-los com todo mundo. Medo do julgamento alheio? Provavelmente sim. A verdade é que, apesar de não os achar ruins, acredito que meus textos carecem de muito amadurecimento para serem julgados; são ainda bebês.

Aliás, o objetivo desse blog é bem este: postar meus textos bebês para que assim eu me acostume a vê-los fora de minha gaveta.

Não sei se um dia me acostumarei.

silêncio!

setembro 3, 2008

11:35 – to com fome; não é bem fome, é um mal estar generalizado causado por um principio de gripe. como vivo paquerando a anemia, me alimento mal (encher o rabo de chocolate na tpm conta?) ou simplesmente me esqueço de comer, todo e qualquer mal estar logo penso em comer algo salgado ‘prá ver se passa’. se não passa, como um docinho. se não passa, oh céus, começo a consultar minha lista mental de possibilidades patologicas e decidir o remédio mais light a se tomar: porque eu odeio tomar remédio e isso é fato.

12:00 – ainda não consegui um ‘pause’ pra sair, porque foda-se a fome / mal estar e o chefe não quer saber se estou num dia mentalmente complicado. reparo que há um carro de som que deve estar parado embaixo da janela do escritório e que está tocando ininterruptamente um forró eleitoral dos infernos.

12:15 – me pergunto se não há alguma lei que nos proteja desses insanos, que acham que vamos votar por osmose: só isso justifica a música ininterrupta e o cara no alto-falante bradando coisas absurdas como grito de guerra, ops, campanha.

12:27 – caralho, não aguento mais. quero morar num país CIVILIZADO. onde o voto não seja obrigatório, de preferencia (hahaha é como dizer policial ladrão ou loira burra isso).

 

hoje vim trabalhar com cara de zombie. meu cérebro está lerdo. meu corpo também. quando as coisas ficam agitadas, parece que há uma nuvem dentro da cabeça embaçando os pensamentos. que merda, não? também acho.

ontem voltando pra casa a noite estava tão-tão… : o ar estava tão denso e frio e havia névoa baixa, não só ao longe como ela era visivel até bem perto. e o melhor, as ruas estavam todas desertas, frias e cobertas pelo silêncio.

adoro noites assim, solitárias. principalmente quando refletem exatamente como está o seu interior.

dos sapos que engolimos…

setembro 1, 2008

só porque eu não pude responder isso para uma abençoada neste findê, mas fiquei com isso na cabeça o tempo todo, martelando e remoendo as palavras.
sim, eu tenho humor negro. mas isso não significa que eu seja uma vadia sem coração;

o meu avô materno me ensinou muitas coisas, entre elas que o mais importante nessa vida é ser feliz e lutar e batalhar e correr atrás do que vc acha que precisa pra ser feliz.

seja um amor, um emprego, uma viagem; ele foi exemplo vivo de que o lar é onde o coração está, e que se o amor é forte demais e há equilibrio na razão, o melhor a fazer é amar!

mas se o amor é forte demais e a sua razão estiver fora dos eixos e no conflito amor x loucura x razão a sua razão não encontra lógica na loucura para justificar tal amor, esqueça. a não ser que vc seja maior de 60 anos e com a partilha de bens registrada em vida, em algum cartório.

¬¬

mas agora é sério: meu vô materno me mostrou in loco e de forma chocante como palavras e lembranças e planos futuros podem te manter com um brilho nos olhos mesmo quando o diagnóstico é o pior possível.

e eu sei disso, porque tive de usar palavras, lembranças e planos futuros inventados e improvisados na angustia de um leito de hospital para mantê-lo acordado durante as quatro horas que separaram a liberação do leito no CTI da chegada da ambulância ao hospital para efetuar a transferência.

ele também me ensinou que opinião é sim como bunda: cada um tem a sua e não dá pra fingir que ela não existe e esconde-la de todo mundo, mas dá pra melhora-la e transforma-la em coisa melhor (do you wanna know how to do it?? run to gyn, girl! or to library, anyway). mas nunca tente modela-la ao perfil dos outros, porque sabe como é, não adianta tentar agradar porque falar do rabo dos outros é extremamente fácil.

seu Francisco tinha personalidade forte; era português, inteligente e com incríveis olhos azuis. só o vi chorar duas vezes. a primeira foi quando ele jogou pétalas de flores por cima do caixão da vovó, quando já estavam baixando dentro do túmulo. ninguém dizia que ele ainda amava tanto sua Maria, sua Dores, mesmo depois de 30 anos de divórcio turbulento. e a segunda foi quando segurou lorena no colo, primeira neta por parte da filha que ele teve no segundo casamento.

já o meu avô paterno é exemplo de que sim, vc pode viver 50 anos ao lado da mesma pessoa e manter a mesma doçura e o mesmo amor dos primeiros dias! pena que minha vó era leonina e não tinha muita paciência com isso!!! e até hoje, ele chora só de lembrar dela…

escrevi isso tudo porque tanto Francisco como Hildebrando marcaram a minha vida e me ensinaram coisas maravilhosas!

e pra abençoada que tive vontade de esganar pela provocação ridicula, dei o meu desprezo. porque não vou partilhar coisas tão valiosas com gente tão pequena.

comentário que virou post

agosto 29, 2008

o medo é a pior das prisões, cecília.

só somos realmente livres quando matamos o medo, quando estrangulamos o desgraçado que não nos deixa respirar livres!!!!

medo de ser chamada de vadia, puta, imoral??? hahaha

medo de se magoar??? mas e a graça de curtir fossa, de dar escândalo, de flertar com o perigo, do beijo roubado, a frágil estrutura da cerca que separa o que é maduro e do que seria traição… a graça de dar espaço ao turbilhão de emoções dentro de nós???

mate seus medos. um a um. estrangule, afogue, jogue de precipicios, trepe em cima dele e esfregue um travesseiro na cara da desgraça até ficar roxa, sirva-lhe chumbinho, esqueça-o trancado dentro do carro em um dia um pouco (MUITO MUITO) abafado.

a liberdade consiste em equilibrar-se em cima de um turbilhão que vc mesmo cria, reinventa, cessa e retorna.

parabéns por se permitir o mais exonerado hábito: exerça-o todos os dias, religiosamente.

sejamos livres, egoístas e temperamentais.

essa é a graça de estarmos vivas.

bem-vinda à montanha russa chamada viver!!!

e para comprovar isso, deixo partes de uma de minhas músicas favoritas abaixo: A montanha mágica, Legião Urbana, memorável álbum V.

Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde (…)

Para que servem os anjos?
A felicidade mora aqui comigo
Até segunda ordem (…)

Não é por incidência a minha indiferença
Sou uma cópia do que faço
O que temos é o que nos resta
E estamos querendo demais
(…)

Existe um descontrole, que corrompe e cresce
Pode até ser, mais estou pronto prá mais uma
O que é que desvirtua e ensina?
O que fizemos de nossas próprias vidasO mecanismo da amizade,
A matemática dos amantes
Agora só artesanato:
O resto são escombros

Mas, é claro que não vamos lhe fazer mal
Nem é por isso que estamos aqui (…)

 

Chega, vou mudar a minha vida
Deixa o copo encher até a borda
Que eu quero um dia de sol
Num copo d’água

 

Renatinho era sábio, Cecília. Com a sábia loucura que só os loucos, os amantes e os bobos-de-corte, os poetas e os LIVRES genuinamente entendem.

entre na piscina, deixe a água irritar seus olhos, cobrir sua testa. seja seu batismo e sua purificação. seja louca, apaixonada, livre. seja feliz.

A procura

agosto 28, 2008

Sempre fui uma covarde.

Tinha medo de temporal, medo de altura, medo de fantasmas, medo de histórias de terror, medo de dentista, medo de peixe, medo de cobra, medo dos outros, medo de mim. Meus medos sempre serviram para me afastar do mundo mais ainda do que já me afasto naturalmente, vivi sempre calculando os riscos de qualquer tipo de relação e tomando sempre o caminho mais seguro e correto. Minha vida até alguns anos atrás pode ser considerada irrepreensível do ponto de vista moral: nenhum grande erro, nenhuma real desilusão, nenhum sentimento verdadeiramente marcante. O resultado de uma vida como a que eu levava é bem simples e até previsível: nenhum; não fui feliz, não senti satisfação, me desagradava a todo tempo porque acreditava que podia ser melhor do que já era mesmo sabendo que não conseguiria fazer mais do que já tinha feito.

Até que cansei de tudo: dos medos, dos cálculos, das certezas; pouco me importa se o que faço é certo ou errado, tento me esquecer de meus medos e quero mais é me apaixonar pelo mais improvável e errado de todos da lista.

Não sei se assim encontrarei a tão procurada felicidade, mas ao menos a liberdade eu sei que já encontrei.

sinto saudade dos meus amigos; ou do que achava que eram meus amigos. mas hoje, após meses e meses de um silêncio conflitante, vejo que nada eram! apenas vozes e letras e nada mais. que toda a imagem e glamour de importância de uma ‘amizade’, nada mais era do que invenção de uma criança com necessidade de amizades.

mas como pode ser isso, se tenho certeza da intensidade que as conversas envolviam? como pode ser isso, com a certeza da importância que a amizade tinha?? será que isso tudo era apenas de minha parte, será que sempre fui a tola??

nasci sozinha, morrerei sozinha. há um abismo chamado de ‘vida’ entre um fato e outro, maaaas… não haverá tanta diferença assim. porque nessa vida, não importa o que aconteça, no fundo estamos sempre sozinhos!

os pais não nos compreendem, os amores não são tão profundos, ou verdadeiros; o prazer sempre acaba, as luzes se apagam, os amigos não tem tempo sequer para retornar uma ligação. você passa sempre, toda a sua existência, sozinho com seus pensamentos, criando seu próprio mundo, inventando importâncias e sentimentalismos pra eventos e pessoas que não se importam nem um pouco contigo ou sequer se lembram dos tais eventos.

de um beijo que foi dado no impulso da despedida, de um inocente toque nas mãos, do silêncio opressivo no telefone, em corar com frases ingênuas… no lembrar do brilho nos olhos, em forçar-se a esquecer as lágrimas de mágoa que causou no outro.

estamos sempre sozinhos, com nossos pensamentos, nosso pulsar e nosso sentir. estamos todos no mesmo mundo, mas vemos por olhos diferentes, logo, tem tantos mundos diferentes quanto individuos lá fora.

porque não importa o quanto vc ache a pessoa especial, sempre vai sentir o mesmo vácuo no peito quando lhe escrever longas linhas contando o seu atual momento e a resposta for curta e evasiva, gritando nas entrelinhas ‘hei, não li nada, não tenho tempo pras suas baboseiras mas to respondendo pra vc não achar que sou insensível’.

será que só eu dou importância pra pessoas que nunca estiveram ‘nem aí’??? que só se aproveitaram da minha estúpida capacidade de acreditar no próximo e suas inocentes intenções, enquanto precisavam de um ombro pra desabafar?

hoje tenho outras amizades, estas verdadeiras. são poucas. raras. quase não há contato. mas sei que posso contar com elas, para um desabafo ébrio no eme esse ene ou uma ligação de emergência soluçante.

porque talvez no fim não estejamos tão sozinhos nessa vida, afinal; talvez haja algumas almas vagantes por aí, que te dão tanta importância como vc também lhes dá.

mas no fundo, sempre há o que calar; o que confessar apenas em pensamentos, os sentimentos confusos e suas ações desastrosas.

e isso nos faz, naturalmente, criaturas solitárias. no nascer, existir e morrer. porque nunca escancaremos nossas dores e feridas e nem exporemos nosso profundo egoísmo, medo e atitudes covardes.
somos incapazes de dividir nosso mundo e mostrar nossas relíquias. porque sempre achamos que o outro não vai se importar.

e só por causa disso hoje eu vim pro trabalho ouvindo the cure e com muito lápis de olho, delineando em cima, por dentro e embaixo. e só saber que estou com esses olhões tão negros, tão castanhos e intensos me faz sentir mais segura, fatal. faz-me sentir uma pessoa melhor.

when you’re good, you’re good. buuut, when you’re evil, you’re better!