temporais.

setembro 25, 2008

ouço a chuva bater na janela, como se me pedisse para entrar. eu a olho através das vidraças, como criança sedenta: quero deixa-la entrar.
não para que molhe meu tapete ou minhas poltronas, não para que encharque minhas cortinas de renda ou estrague meu assoalho de taco escuro e antigo, talvez mais velho que o mundo. mas para que ensope minhas roupas, inunde o meu mundo e me afogue com seu peso atemporal.
assim, quando a chuva acabar, talvez minhas margens estejam fecundas e prontas para criar.

talvez haja como brotar alguma vida, que não seque e despedace ao ouvir o som da tua voz,
o ruído do teu riso nervoso,
o eco dos teus passos de adeus.

Num domingo qualquer

setembro 17, 2008

Acordei com gosto de choro na boca e sentimento de derrota na alma. Sinto-me tão vazia que nem me atrevo a tentar fingir para os outros que está tudo bem, porque hoje é um daqueles dias excepcionais onde sei que não conseguirei dissimular a enorme angústia que me aflige.

Minha tristeza, minha fraqueza, minha desilusão. São os únicos seres que me acompanham neste domingo ensolarado no qual tudo sorri e mesmo assim nada me comove.

Todos seguem suas vidas e eu continuo aqui no canto.

ventos.

setembro 9, 2008

eu me sinto sozinha.

mas não é algo atual. vem desde os primórdios de minha respiração. para não me sentir rejeitada, preferi ser solitária. mas às vezes a solidão escancara a porta e gargalha na minha cara, fazendo-me encolher trêmula num canto.

tinha tantos medos! mais medos que sonhos. e para cada tarde de ócio, criava mundos diferentes, com meninas que montavam cavalos selvagens, exploravam ilhas perdidas ou viajavam pelo Universo, explorando galáxias desconhecidas.

hoje, não mudei muito. e às vezes fico com esse estranho vazio no peito, que às vezes sulca fundo. nessas horas, amo ainda mais o vento: porque pode vagar livre por todos os cantos, livre de correias e compromissos e calendários e estações.

quem me dera poder vagar junto dele, através dele, das chuvas sem fim e do suave sol de um amanhecer qualquer.

O blog

setembro 8, 2008

Hoje um aluno meu me perguntou, mais um vez, se eu escrevia alguma coisa e dessa vez eu respondi que sim. Mas me lembrei de acrescentar automaticamente: “nada que preste”.

Acredito que menti, não acho que meus textos não prestem (muito menos que sejam maravilhosos) é que apenas não tenho vontade de compartilhá-los com todo mundo. Medo do julgamento alheio? Provavelmente sim. A verdade é que, apesar de não os achar ruins, acredito que meus textos carecem de muito amadurecimento para serem julgados; são ainda bebês.

Aliás, o objetivo desse blog é bem este: postar meus textos bebês para que assim eu me acostume a vê-los fora de minha gaveta.

Não sei se um dia me acostumarei.

silêncio!

setembro 3, 2008

11:35 – to com fome; não é bem fome, é um mal estar generalizado causado por um principio de gripe. como vivo paquerando a anemia, me alimento mal (encher o rabo de chocolate na tpm conta?) ou simplesmente me esqueço de comer, todo e qualquer mal estar logo penso em comer algo salgado ‘prá ver se passa’. se não passa, como um docinho. se não passa, oh céus, começo a consultar minha lista mental de possibilidades patologicas e decidir o remédio mais light a se tomar: porque eu odeio tomar remédio e isso é fato.

12:00 – ainda não consegui um ‘pause’ pra sair, porque foda-se a fome / mal estar e o chefe não quer saber se estou num dia mentalmente complicado. reparo que há um carro de som que deve estar parado embaixo da janela do escritório e que está tocando ininterruptamente um forró eleitoral dos infernos.

12:15 – me pergunto se não há alguma lei que nos proteja desses insanos, que acham que vamos votar por osmose: só isso justifica a música ininterrupta e o cara no alto-falante bradando coisas absurdas como grito de guerra, ops, campanha.

12:27 – caralho, não aguento mais. quero morar num país CIVILIZADO. onde o voto não seja obrigatório, de preferencia (hahaha é como dizer policial ladrão ou loira burra isso).

 

hoje vim trabalhar com cara de zombie. meu cérebro está lerdo. meu corpo também. quando as coisas ficam agitadas, parece que há uma nuvem dentro da cabeça embaçando os pensamentos. que merda, não? também acho.

ontem voltando pra casa a noite estava tão-tão… : o ar estava tão denso e frio e havia névoa baixa, não só ao longe como ela era visivel até bem perto. e o melhor, as ruas estavam todas desertas, frias e cobertas pelo silêncio.

adoro noites assim, solitárias. principalmente quando refletem exatamente como está o seu interior.

dos sapos que engolimos…

setembro 1, 2008

só porque eu não pude responder isso para uma abençoada neste findê, mas fiquei com isso na cabeça o tempo todo, martelando e remoendo as palavras.
sim, eu tenho humor negro. mas isso não significa que eu seja uma vadia sem coração;

o meu avô materno me ensinou muitas coisas, entre elas que o mais importante nessa vida é ser feliz e lutar e batalhar e correr atrás do que vc acha que precisa pra ser feliz.

seja um amor, um emprego, uma viagem; ele foi exemplo vivo de que o lar é onde o coração está, e que se o amor é forte demais e há equilibrio na razão, o melhor a fazer é amar!

mas se o amor é forte demais e a sua razão estiver fora dos eixos e no conflito amor x loucura x razão a sua razão não encontra lógica na loucura para justificar tal amor, esqueça. a não ser que vc seja maior de 60 anos e com a partilha de bens registrada em vida, em algum cartório.

¬¬

mas agora é sério: meu vô materno me mostrou in loco e de forma chocante como palavras e lembranças e planos futuros podem te manter com um brilho nos olhos mesmo quando o diagnóstico é o pior possível.

e eu sei disso, porque tive de usar palavras, lembranças e planos futuros inventados e improvisados na angustia de um leito de hospital para mantê-lo acordado durante as quatro horas que separaram a liberação do leito no CTI da chegada da ambulância ao hospital para efetuar a transferência.

ele também me ensinou que opinião é sim como bunda: cada um tem a sua e não dá pra fingir que ela não existe e esconde-la de todo mundo, mas dá pra melhora-la e transforma-la em coisa melhor (do you wanna know how to do it?? run to gyn, girl! or to library, anyway). mas nunca tente modela-la ao perfil dos outros, porque sabe como é, não adianta tentar agradar porque falar do rabo dos outros é extremamente fácil.

seu Francisco tinha personalidade forte; era português, inteligente e com incríveis olhos azuis. só o vi chorar duas vezes. a primeira foi quando ele jogou pétalas de flores por cima do caixão da vovó, quando já estavam baixando dentro do túmulo. ninguém dizia que ele ainda amava tanto sua Maria, sua Dores, mesmo depois de 30 anos de divórcio turbulento. e a segunda foi quando segurou lorena no colo, primeira neta por parte da filha que ele teve no segundo casamento.

já o meu avô paterno é exemplo de que sim, vc pode viver 50 anos ao lado da mesma pessoa e manter a mesma doçura e o mesmo amor dos primeiros dias! pena que minha vó era leonina e não tinha muita paciência com isso!!! e até hoje, ele chora só de lembrar dela…

escrevi isso tudo porque tanto Francisco como Hildebrando marcaram a minha vida e me ensinaram coisas maravilhosas!

e pra abençoada que tive vontade de esganar pela provocação ridicula, dei o meu desprezo. porque não vou partilhar coisas tão valiosas com gente tão pequena.

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